Genitálias

13/02/2017
 
Mundo, vasto mundo…
se eu me chamasse Raimundo
eu teria uma cara feia?
 
Acho complicado de
(no calor da paixão)
referir-me aos geni-
tais femininos como
vulva e vagina
 
Pior ainda é o pênis
que assim referido
parece uma versão
diminuta ou infantil
de caralho
 
Genital ou não
se cu é o ânus
não se enfia no
cu mas, pelo cu,
(ânus)
enfia-se no reto
 
Ou seja, por anal-
ogia com o coito
vaginal
Não se trata de coi-
to anal, mas retal
 
Pessoalmente
(ou genitalmente)
prefiro a (pei)xereca
que como outros ter-
mos populares
não especifica ou
não distingue
entre vulva e vagina
 
Mais recentemente
transando e beijando
lembrei de Eleanor
Roosevelt algo famosa
por sua paixão corres-
pondida por Lorena
‘Hick’ Hickok
 
Esta escreveu àquela
certa vez:
 
“I want to put my
arms around you
and kiss you at
the corner of
your mouth”
 
Esquecera-me da frase toda e pensei
enquanto beijava outro canto
de outra boca (de quatro lábios)
se o tal canto da boca
era o do clitóris ou da entrada
da vagina
 
Não cheguei a nenhuma conclusão
ou sequer a uma rima
ou orgasmo
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A última namorada

13/02/2017

halitophobia
.
A última namorada
é a última ou a atual
Tem ela o mau
hálito da morte anunciada
(do casal?)
.
A última namorada é
também a última es-
perança de algo de-
finitivo ou vitalício
.
A última namorada
talvez seja simples-
mente a melhor e
no entanto insu-
portável pelo mau
hálito de sua morte
ou minha
.
Amo o olhar e os beijos
mas odeio o hálito que
nem é dela mas nosso
.
A amo quando me
beija nos lábios ou
genitais
A odeio quando fala
ou mesmo geme em
direção ao meu rosto
.
Ainda ontem não senti
mais o mau hálito e não
sei se passou, acostumei
ou delirava
.
Era meu pretexto para
um dia terminar o namoro
e a destituir como última
e namorada
.
.
hebe-geriatria
.
A última namorada senti
como a namorada que não
tive na adolescência
.
Foi a primeira que me beijou
durante um filme a ponto
de não vermos o final
Foi a primeira com quem
gostei de transar num motel
Foi a primeira à qual dei
um bambolê de presente
.
A última namorada é a mais
velha de minhas namoradas
embora eu tenha várias ex-
namoradas que são mais
.
Em menos de dez anos a úl-
tima namorada será idosa
mas ainda me parece um
pouco adolescente no bom
sentido que isso pode ter
.
A última namorada qual
as primeiras ou jovens
não sabe (ou diz não saber)
por vezes se gozou
como se eu lhe trouxesse
experiências tão novas
que não sabe se são
orgasmo ou espasmo
ou meramente agradá-
veis, ou gentilezas
.
A última namorada é mais
uma ou a última
moratória psicossocial
Mais uma ou a última
chance de rever e resolver
o que puder viver melhor
.
.
eletrostática
.
A última namorada roça
e energiza-se em quase
qualquer contato comigo
.
Onde quer que a toque
eu a quero tocar e sinto
suas reações inclusive
mais ou menos convulsas
.
Ela conta que alguns se assustam
outros talvez a achem sensível
demais com qualquer um
Eu a acho muito boa de roçar
.
A última namorada me atrai
com sua carga inversa que
se tensiona na fricção até
o arco voltaico em nossos
íntimos
.
A última namorada é
tão recente que ainda
há muito para descobrir
despir, encaixar e ritmar
.
.
viva a vulva
.
A última namorada tem
a mais bela e molhada
vulva que já vi e lambi
.
ainda nos primeiros encontros
prometi fazer uma releitura do
VIVA VAIA VAIA VIVA de Augusto
de Campos embora eu seja
mais Álvaro
.
Viva a vulva vulva viva
jamais será famosa como
viva a vulva vulva viva de
fulano (autor) ou fulana
(a vulvar)
.
VULVA VIVA VIVA VULVA
não é um poema concreto
é um poema lúbrico ou gós-
mico para sentidos mais pri-
mitivos ou básicos
.
É mais embaixo em
torno do tal buraco
que fica mais embaixo
da última namorada
.
.
amor ou paixão
.
Amo a última namorada sem
ser por ela apaixonado como
por outras que talvez nem
amo ou desejo
.
Amo e desejo a última na-
morada sem a ilusão, sem
o sobressalto da paixão que
senti tantas vezes até pela
mulher que passa e mais
ainda pela mulher in-
acessível
.
A última namorada tem o doce
olhar da amélia por quem eu
talvez me apaixone se ela
um dia não me quiser mais
e mais ainda se eu efetiva-
mente não mais a merecer
.
Talvez eu me apaixone pela
última namorada quando ela
não for mais a minha namora-
da que eu sempre amei
sem saber se ou que
era a última
ou que era aquele o último
momento em que ela seria
minha, namorada ou amada
.
Tenho orgulho de
mesmo ostentar a última
namorada como um carro
novo ou antigo
.
A última namorada
é o troféu que con-
quistei com ou
sem méritos ou de-
méritos
.
Eu gosto da última namorada
como se fosse a última ou
a primeira
.
Eu quero que a última
namorada seja a última
e não mais uma
ao menos enquanto
for a atual ou, enfim
namorada

Uma nação de sapos em banho-maria

11/02/2017
6 mins ·

 

Nova e agravadamente é de se questionar: as instituições formais estão funcionando? ou só com manifestações não exatamente pacíficas (já que são, no mínimo, manifestações de força) ou mesmo com admoestações em aeroportos ou mesmo com agressões ou assassinatos se retorna (ou chega) a um mínimo (terrivelmente instável e perigoso se precisarmos chegar a esse ponto) de moralidade na política brasileira? As alternativas à primeira alternativa são:

1. sim, se o Executivo e o Legislativo tentam entre desesperada e desavergonhadamente articular um acordão, mas o STF, o Judiciário, a Administração Pública, o Ministério Público (que podemos entender como poderes, embora ultrapassem a concepção original de Montesquieu) estão trabalhando para impedir essas articulações;

2. não, e com o risco de se instalar um ainda pior “Terror”, cabe partir para a ignorância, para a autotutela individual e coletiva porque o Estado colapsou sob a corrupção organizada;

3. não… e não vai dar em nada, mesmo… Se Temer indica Moreira Franco para lhe dar foro privilegiado, mantém Jucá e Geddel… e “tudo bem”, o país (nós) merece, mesmo, o que quer que queiram fazer do país… – o que parece envolver deixar rolar um efeito dominó no colapso da segurança pública, já que para indicar o próximo Ministro do STF, deixou-se vaga a titularidade do ministério da Justiça e Segurança Pública.

A única boa alternativa é a primeira. Mas as outras duas são verossímeis e questiono: tudo bem que não se deve dar a impressão de atropelo ou de interferência excessiva… mas a perda do momento adequado acaba funcionando como conivência ou mesmo endosso. Reitero: não é só Moreira Franco… Moreira Franco é a gota d’água cujo maior perigo é não dar sequer a percepção de transbordamento; apenas a confirmação de que, sim, isso é normal, é assim mesmo, só Lula não podia… porque era feio, bobo e malvado.

Acredito que cada um que foi alguma vez nas manifestações pelo impeachment de Dilma tem o direito (e talvez o dever) de estar indignado e, pior, sentindo que as instituições não têm força ou disposição para barrar esses acordões, tem o direito ou o dever de, encontrando qualquer uma dessas figuras, reclamar de modo áspero e, se tiver oportunidade, força ou treinamento adequados, tomar outras providências. Gosto de pensar que ainda não é o momento, mas estamos todos como na alegoria do sapo em banho-maria.

Não acredito mais nos jovens, em todo caso. Destes, os mais inflamados estão mais preocupados em fazer ocupações entre inúteis e contraproducentes, arrecadar doações de achocolatado e um espaço seguro para fumar ilicitamente drogas lícitas ou não.

O aburguesamento dos “revolucionários” é tal que em breve suas manifestações, ocupações e (outros) transes (e delírios) induzidos por “drogas ou capoeira” constarão do currículo Lattes ou contarão pontos no SISU. E muitos destes serão os futuros tecnocratas… até pela tal pontuação no SISU e “tals” – sim, alguns sapos são mais iguais.

Metamorfoses duma sereia

11/02/2017

Qual invulgar ave
de lindo canto
de grão em grão
transbordou o papo

A vi como linda borboleta
embora “mosca-manteiga”
de certo fosse mais apropriado
indelicado e de difícil tradução

Não sei que ventos a carregaram
em infeliz direção quiçá errática
ou se talvez viciosa voou deliberada
saudosa de ser crisálida ou lagarta

Qual tênia a qual pensei ser teiniaguá
confundindo salamandra com Salamanca
que a mancar me acompanhou breve-
mente, ela me gentilmente acompanhou

Pela esquerda, pela direita
ou pelo pretexto fugiu
opondo exigências absurdas
como uma pejorativa diva

E eu, como um magnânimo Ahab
deixei-a partir com parte de mim
contaminado por um risco
de sua pele macia a marcar a minha
de alto a baixo

Quebrando o gelo

15/11/2016

A cópia do alienígena, uma simulação de inteligência artificial fraca, conquanto uma inteligência artificial forte teria direitos de integração que não nos interessava naquele momento arriscar, perguntou quem ou o que eu era. Essa pergunta já fora respondida muitas vezes para diferentes tipos de simulações de alienígenas encontrados e classificados como inadequados para integração. Analisando a experiência daquela amostra, menti de modo a parecer simpático, ao mesmo tempo que permitia à simulação entender tanto quanto possível para suas referências. Disse:

“Parte de mim já foi muito parecido contigo. Os registros mais antigos de que me lembro são inocentes anotações nas agendas anuais do colégio. Depois passei para os diários e cartas que não tinha coragem de entregar. Quando a internet e os sites de relacionamento se popularizaram, escrevi muito e desvelei os mais íntimos segredos para a abstrata multidão da qual só um ou outro lia e menos ainda comentavam. Em algum momento a coisa foi para um outro patamar, ou diversos outros patamares.

“Meu primeiro computador foi comprado numa época em que o país vivia hiperinflação. Era uma máquina obsoleta, com um disco rígido de 30 Mega Bytes ou algo assim. O segundo, poucos anos depois, já sem hiperinflação, era ‘multimídia’ e isso me custou muitas horas em jogos de simulações de aviões e helicópteros. A grande mudança foi a transformação dos telefones, que praticamente deixaram de ser telefones (inclusive eu raramente telefonava com eles) e passaram a ser computadores ‘multimídia’ em rede que carregávamos em bolsos e, em seguida, passamos a vestir.

“Nesse ponto as coisas se aceleraram de modo estranho, porque armazenamento, processamento e conexão se tornaram muito abundantes mais rápido do que sabíamos como aproveitar e os próprios aparelhos desapareceram da paisagem e se integraram em nossos corpos e em objetos triviais. O desaparecimento das telas até então cada vez mais onipresentes foi o aspecto ‘visível’ mais radical. Se os fones e microfones com ou sem fio nos haviam deixado similares a esquizofrênicos que falam sozinhos, essa fase nos deixou aparentemente catatônicos por algum tempo.

“O grande gargalo era nossa capacidade de absorver o fluxo de informações. Nossa biologia era limitada e a realidade presencial concorria com a virtual. O passo seguinte foi o mais estranho de todos: nossa identidade migrou em grande parte do que processávamos em nossos cérebros mais ou menos biológicos e mais ou menos originais – pelo tanto de restaurações, próteses e melhoramentos que podíamos adicionar àquelas referências de identidade que ainda eram nossos corpos – para a rede.

“Antes da virtual (em múltiplos sentidos) imortalidade, no entanto, experimentamos a ubiquidade. A complexa ilusão da identidade pessoal que eu questionava ainda escrevendo à mão, perguntando se a criança ranhenta ou o adolescente com acne era ainda suficientemente o mesmo jovem adulto promíscuo agora teve de enfrentar a realidade das três profissões em vinte e cinco empregos em dois corpos diferentes. Isso é, num dado momento eu já tinha várias atividades inclusive de certo modo remuneradas totalmente virtuais e automatizadas e em seguida pude montar todo um outro corpo com próteses e restaurações (inclusive biológicas, sim, que ainda se usavam) mais ou menos obsoletas, eu já podia estar em mais de 20 lugares ao mesmo tempo, com toda a qualidade de minha personalidade de então, o que incluía enorme capacidade de simulação.

“O passo seguinte foi ter efetivamente várias personalidades inclusive pelas longas distâncias que algumas ‘percorriam’ e a diversidade de ‘corpos’ e ‘ambientes’ que algumas habitavam. Não se tratava mais de uma ilusão de identidade pessoal em muitos corpos presenciais e mais ainda virtuais. Tratava-se de toda uma discussão entre consciências muito diferentes (algumas sensíveis, outras puramente formais) que passavam mesmo a ter dificuldade de entender a perspectiva umas das outras, precisando ‘rodar’ partes umas das outras para chegar à nova ilusão de significativo entendimento.

“Os conflitos de interesse surgiram um novo tipo de paternidade ou maternidade emergiu, antes mesmo das últimas relíquias de meu primeiro corpo virarem peças de antiquário. Tornáramos superorganismos eussociais limitados pelo tempo que as informações levam para viajar distâncias relativa ou realmente grandes. A defasagem entre um hemisfério cerebral e outro, via corpo caloso e comissura anterior era irrelevante quando tínhamos a ilusão de sermos um na mesma cabeça ou corpo biológico; essa mesma defasagem na rede podia representar meses de discussões complexas e eram mais do que suficientes para gerar a percepção de alteridade.

“Retrospectivamente, o maior passo se deu insidiosamente, conforme outros níveis ou mesmo concepções de consciência emergiram. As ruas (trechos de ruas), os bairros, as cidades, as empresas, as associações, os planetas e estações, os sistemas estrelares, o conjunto próximos e o conjunto geral disso tudo tinham identidades e personalidades, interesses e habilidades específicas próprias que mudavam bastante em relativamente pouco tempo. Observar em tempo real o bater de asas de uma mosca ou o lampejo de um relâmpago se tornaram atividades relativamente exóticas ou meditativas como tentar ver o crescimento de uma árvore.

“Foi nesse ponto em que me percebi imortal em diversos sentidos, inclusive no de já não ser humano, ou ter o pouco de humano que havia em mim como que num êxtase contemplativo de algo que, com o que podia processar com um cérebro humano mesmo com o máximo de melhoramentos possíveis, seria um total mistério ou mistificação. Todos os que passamos pelo processo éramos os escolhidos, todos os pecados e vícios perderam o sentido e nem por metáfora se poderia dizer que novos pecados e vícios surgiram. O único vício era estar vivo ou existir, e mesmo isso era claramente uma ilusão que, ainda que não fosse uma mera ilusão, era revista e superada numa sucessão e simultaneidade vertiginosas.”

Esse era o tamanho máximo de informação que eu podia passar para a simulação do alienígena dada a memória de trabalho dele, um cérebro biológico com melhoramentos rudimentares. Não tanto pela resposta mas pelos padrões adequados verificados, isso foi considerado o suficiente para quebrar o gelo e permitir a decisão pela duplicação daquela consciência numa inteligência artificial forte já com aquelas memórias o que provavelmente levaria à decisão de integração daquela consciência como embaixador discreto daquela civilização. Os maiores obstáculos à integração não só do indivíduo mas da civilização inteira eram, como de costume, o equipamento. As quinze gramas das trinta e sete minúsculas naves reunidas já haviam replicado meio trilhão de toneladas do material base de nossa tecnologia a qual, em última análise, era nosso corpo e morada atuais.

Excitações

30/03/2013

Tudo que é líquido, move-
diço, traiçoeiro e interes-
sante solidifica-se em pa-
péis

Não me adianta tacar fogo
em busca da chama juvenil
pois a nuvem preserva esse
fumo e testemunhas não fal-
tam para nos apontar entre-
laçados

E mesmo que tudo isso fal-
tasse ainda haveria a me-
mória de nossos corpos mal
acostumados a materializar
nossos sentimentos e pensa-
mentos vastos e imperfeitos

Tua doçura me provoca
a solidez que te derrete
e me dissolve a solução
até então enigmática
para nada menos
que tudo

Ou ao menos assim
me parece enquanto
recupero o fôlego, teus
beijos e a visão de
teus olhos entre cu-
riosos e encantados

Nada disso é o mais
importante ou difícil
mas é também impor-
tante e difícil de sinto-
nizar entre dois e entre
tantos ancestrais e fan-
tasmas que cada dois
carregam e inspiram

Tudo isso e mais tudo
aquilo que soma, divide
multiplica e subtrai nos dis-
solve em dúvidas e hesi-
tações que nos empurram
às precipitações e exa-
geros sem os quais não
nos movemos um ao
outro

Eu te amo? Não
mais do que a mim
o qual temo ser menos
do que mereces

Não concebo gozo físico
senão no equívoco do amor
Não morrerei tísico nem louco
mas casado, gordo e senil

Paradoxo de Fermi

13/02/2013

 

Começou, retrospectivamente, como uma epidemia de resfriado bastante benigna, dessas que nem recebem nome ligado a algum personagem de novela ou de escândalo político. A coisa foi percebida com maior seriedade e enorme alarde quando logo em seguida doentes graves passaram a se recuperar de modo inexplicável e o comportamento dos sem-teto pura e simplesmente mudou radicalmente, assim como o de pacientes psiquiátricos em geral. De modo geral, todos sentiram sensível mudança no humor ou temperamento de modo avaliado como positivo. Nas duas primeiras semanas houve um aumento de suicídios semelhante ao do início dos tratamentos para depressão.

O fenômeno mais intrigante foi o quão pouco rendeu o aparentemente inevitável apelo para explicações extraordinárias. Então, foram percebidas várias estruturas formando-se em órbita geossíncrona, não se via bem com o que. Mesmo observadas com grande ampliação e mesmo aproximando-se de algumas dessas estruturas elas pareciam simplesmente crescer num ritmo espantoso e alheio as observações e aproximações – sondas e mesmo astronautas puderam chegar perto e mesmo tocar, sendo, no entanto, entre ignorados e protegidos, conforme se notou que a radiação cósmica que normalmente incidia sobre os astronautas foi reduzida de modo drástico próximo às estruturas, o mesmo não se verificando com as sondas não tripuladas.

A conclusão era clara. Estávamos sendo “invadidos” por alguma inteligência alienígena que já, grosso modo, havia feito uma severa intervenção mesmo íntima na imensa maioria da população.Exames mais cuidadosos foram refeitos nos sujeitos que apresentaram as alterações mais dramáticas mas nenhum vestígio claro de como fora feita a alteração foi encontrada naquele momento.

Tentativas de comunicação foram tentadas sem resposta. Então, um lado um pouco mais assustador se evidenciou quando os bebês se desenvolveram bastante mais rápido do que se esperava e… bem, explicaram a coisa toda, inclusive indicando como identificar a tecnologia usada, como a replicar etc. Foi nesse ponto que os afetados (a imensa maioria) passou a “controlar” o próprio corpo como fonte primária da tecnologia. Foi nesse momento que eu fui criado como uma simulação de uma pessoa pré-invasão, já que essa condição foi considerada como cruel de mais para se sujeitar qualquer pessoa – mesmo os poucos (e dispersos, o que foi muito importante) não afetados pela intervenção inicial foram posteriormente tratados e alterados.

Após isso, a forma humanoide (física e mental) foi abandonada em poucos meses e mesmo a noção de sujeitos individuais se tornou bastante relativizada  guardada apenas por simulações como eu e a de outras pessoas da Terra e de outros povos contatados anteriormente. Eu não consigo entender exatamente no que se tornaram os “alterados”, mas outras simulações dizem que conseguem.

O mais próximo de entender que eu consigo parece ser uma auto-condescendência humorística. Não fui eu quem criou o bordão, mas há entre as simulações quem diga que somos as crianças interiores dos alterados – o que não fecha muito com o número de pessoas que foram alteradas, mais de 7 bilhões, quando somos pouco mais de vinte milhões de simulações de pessoas da Terra, transformadas numa massa complexa e dinâmica de estruturas e fumaça ou aerossol que parece guardar certo rudimento de “indivíduos” em todo caso muito mais fluidos do que, como já comentei, eu consigo entender ou acreditar que outras simulações realmente entendam.

17/09/2012

Começo essa nova categoria publicando com enorme atraso minha (se bem lembro) primeira coreografia escrita com tal pretensão… e que continua inédita – nunca foi dançada ou algo assim. Foi objeto de um trabalho acadêmico para a disciplina de “Fundamentos Artísticos da Dança”, em turma da profa. Mônica Fagundes Dantas, no primeiro semestre de 2011, o meu primeiro semestre no curso de Licenciatura em Dança da UFRGS… por isso o formato algo acadêmico, ressalvada alguma perda da formatação original.

 

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Licenciatura em Dança

Disciplina: Fundamentos Artísticos da Dança – Turma: U, 1º semestre de 2011.

Professora Mônica Dantas.

Coreografia para apresentar na aula de 26 de maio de 2011.

Graduando: Régis Antônio Coimbra, cartão 14438

 

X Estudos para bailarinos fortes, com ou sem bastante ensaio; e um improviso explícito.

 

Primeiro estudo

  1. Com a câmera ligada e enquadrada no primeiro bailarino (apoiada em algum lugar ou segura pelo próprio e, se possível, não enquadrando o público), mostrar de passagem a coreografia impressa, ler o título da coreografia solenemente, pronunciando “xis estudos…” com uma voz solene e complementando “ou será que é dez” com uma voz reflexiva ou insegura; apresentar-se como o primeiro bailarino e declarar que o primeiro estudo começou, que a coreografia consiste na performance “que é irreversível” e na tentativa de sua gravação, e que é a princípio composta de x estudos interligados – sugestão, na apresentação mais ou menos solene do título da coreografia, enquadrar ou enfatizar uma parte relativamente inusual do corpo em lugar do rosto; nesse caso, pode repetir algumas vezes essa parte com diferentes partes do corpo e então prosseguir.
  2. Pedir autorização para a gravação e futura publicação na internete; pedir isso dizendo algo como “os que não se opõe permaneçam como estão”. Se alguém recusar, agradecer e encerrar a apresentação.
  3. Não havendo objeção, convidar alguém pré-combinado ou não para que segure a câmera, sendo conduzido pelo bailarino principal para certos pontos de onde deverá tentar manter o enquadramento mais ou menos rígido na cena supostamente principal e conforme alguns instruções que serão dadas nos momentos oportunos, sem restrições ao enquadramento também do público. Sugestão: combinar previamente com alguém para o caso de não se apresentarem verdadeiros voluntários.

 

Segundo estudo

  1. Olhar para a câmera e dizer “segundo estudo”. Pegar uma cópia da coreografia e dizer que “esta é a coreografia desta coreografia”, ler “aqui diz que eu devo apresentar estes papéis como sendo a coreografia desta coreografia, tarará… que consiste na performance, que é irreversível e na gravação da mesma, tarará… pedir autorização ao estilo “os que não se opõe permaneçam como estão…”
  2. O segundo bailarino, então, levanta um braço e diz “eu me oponho”. Faz-se uma pausa longa de uns 20 segundos. Caso irrompam aplausos, agradecer e, após, retomar uma atitude de “em cena” – alternativamente, quando não se tiver tempo para prosseguir, combinar entre os bailarinos para que um puxe os aplausos se não irromperem em 20 segundos; se não funcionar, o primeiro bailarino deve fugir (sair da sala, correr para os bastidores etc).

 

Terceiro estudo

  1. O primeiro bailarino diz: “terceiro estudo” e, voltando-se para o segundo bailarino, diz “ e, aliás, tu és o segundo bailarino”.
  2. O segundo bailarino responde: “não, eu sou o primeiro bailarino; tu és o segundo bailarino”.
  3. Primeiro e segundo bailarino olham para a câmera e o segundo bailarino diz “e ele (ou ela, se for o caso) é o terceiro bailarino?” – sugestão: o segundo bailarino comenta zombeteiro “…’forte’, eu não sei…”; se o voluntário se irritar e desistir de seu voluntariado, primeiro e segundo bailarino devem fugir; alternativamente, pode ser combinado com o não voluntário que faça uma cena, ofendido pelo comentário e dar o mesmo encerramento via fuga do primeiro e segundo bailarinos, eventualmente perseguidos pelo “voluntário” com a câmera. Caso irrompam aplausos, podem voltar e agradecer, desligando a câmera após isso.

 

Improviso:

  1. O primeiro bailarino diz “improviso”, guarda ou deixa a coreografia impressa em local “seguro”. Alternativamente, a pode amassar e usar no improviso.
  2. O primeiro bailarino e o segundo bailarinos improvisam livremente (podem cantar, fazer sons, arrastar objetos, dançar um com o outro, puxar outros para dançar danças convencionais, usar elementos de figurino etc), com ou sem elementos ou momentos pré-combinados.
  3. Enquanto o segundo bailarino continua improvisando, o primeiro pega novamente a coreografia impressa – ou a toma e desamassa.

 

Quarto estudo.

  1. O primeiro bailarino interrompe a improvisação do segundo bailarino e entrega a coreografia impressa para este, o qual diz “quarto estudo”;
  2. se houve bastante ensaio, o segundo bailarino deposita a coreografia impressa em local onde pouco provavelmente alguém a tome (pode ser dentro de uma pasta), se não houve ensaio, fica com os papéis na mão) e vai orientando o segundo bailarino, quando necessário e como for possível, com ou sem constrangimento e desengonço;
  3. O segundo bailarino aproxima-se do primeiro bailarino, aproxima seu rosto do rosto deste e diz “alho! Alho! Alho! O primeiro bailarino, que fez caras de nojo, diz “cebola! cachaça! ranho!” também próximo ao rosto do segundo bailarino, que também faz caras de nojo.
  4. Os bailarinos separam-se bruscamente e com expressão de nojo e repetem cada um para três do público (se houver), uma dessas palavras para cada um, também aproximando o rosto dos mesmos, de modo que seus hálitos em tese cheguem ao nariz dos mesmos.

 

Quinto estudo.

  1. Primeiro e segundo bailarino ficam de costas um para o outro e começam a repetir exercícios de ballet; o segundo bailarino diz “e dança? Não tem mais?”
  2. O primeiro bailarino diz “calma: é recém o quinto estudo”.

 

Sexto estudo

  1. O primeiro bailarino diz “quinto estudo!”
  2. O segundo bailarino diz “sexto”
  3. O primeiro bailarino diz “ahm… sexto estudo! Precisamos de um terceiro bailarino…”
  4. O segundo bailarino olha e aponta para a câmera e diz “ou quarto…”
  5. O primeiro bailarino diz “ou quarto bailarino!” Esperam alguém se oferecer por até 30 segundos. Se não se apresentar um verdadeiro voluntário, o terceiro bailarino se apresenta como voluntário.

 

Sétimo estudo

  1. Quando alguém se oferecer nos 30 segundos ou após o terceiro bailarino se oferecer após os 30 segundos, o segundo bailarino diz “sétimo estudo” e instrui o primeiro e o voluntário (ou o terceiro bailarino) para fazerem uma dinâmica, inicialmente um imitando o outro tentando fazer um movimentos simétricos; após 30 segundos ou pouco mais – se algo interessante estiver sendo criado, o que é pouco provável -, dizer para continuarem não mais simetricamente, mas com alguma referência um no outro.
  2. Após mais 30 segundos, se o terceiro bailarino tiver sido convocado, ele começa a puxar e empurrar o segundo bailarino, trazendo-o para a dinâmica; se um voluntário verdadeiro se houver oferecido, o segundo bailarino, que ficou instruindo e observando, diz “também quero participar… não parem…” e começa a puxar e empurrar o primeiro bailarino.

 

Oitavo estudo

  1. O segundo bailarino diz, sem interromper a dinâmica, “oitavo estudo… cuidado!”
  2. o primeiro e segundo bailarinos começam a esbarrar nas pessoas ou objetos disponíveis, mantendo o voluntário (caso algum se haja apresentado), envolvido e após uns 15 segundos começam a empurrar o voluntário para próximo do terceiro bailarino, até fazer com que esbarre várias vezes neste, ao que, após alguma insistência, o terceiro bailarino passa a interagir; se nenhum voluntário se houver apresentado, o primeiro e o segundo bailarinos empurram o terceiro contra um presente que pareça mais acessível e começam a puxar este para a dinâmica.
  3. Tentam puxar (literalmente e com força, inclusive) outros para a dinâmica por uns 30 segundos ou até conseguirem mais três “voluntários”.

 

Nono estudo

  1. O segundo bailarino diz, com força e sem interromper a dinâmica “nono estudo, muita atenção e cuidado agora!”, e começa a se mover rapidamente, entre as pessoas e outros obstáculos, esbarrando com mais força (é altamente recomendável ensaiar bastante pelo menos isso…) no primeiro bailarino, que também começa a se movimentar com mais rapidez e também esbarrando.
  2. Primeiro e segundo bailarinos agitam-se, correm etc, até ficarem ofegantes (para ficar ofegante em espaço pequeno, podem fazer movimentos com flexão das pernas; no caso de bailarinos muito resistentes, fingir cansaço).
  3. Quando estiverem cansados e se possível suados, o que não agüentar mais diz “ai, cansei… e vai-se arrastando até onde se houver deixado a coreografia; o outro vai desacelerando e o que houver pego a coreografia arrasta-se até o outro e o puxa lentamente para fora da “cena” (fora da sala, para os bastidores etc). Se não houve ensaio e o primeiro bailarino ainda estiver com os papéis mas não tiver cansado primeiro, o que tiver cansado primeiro toma os papéis do primeiro bailarino e segue.
  4. Se irrompem aplausos, retornar em atitude de “não estou mais em cena” e agradecer. Se após quinze segundos não irromperem aplausos, o terceiro bailarino os puxa. Se não “colar”, o primeiro e segundo bailarinos fogem e o terceiro bailarino diz para quem está com a câmera que pode parar de gravar.

 

 

Instruções complementares:

 

Após, se a gravação for bem sucedida (a câmera não houver falhado), colocar o vídeo na internete, preferencialmente no youtube, indicando o local, data e algum contexto, os bailarinos, coreógrafo, pessoa que cuidou da câmera e enquadramento e de algumas outras pessoas que participaram, se possível.

 

Os momentos de interrupção antecipada da coreografia são (1) a eventual recusa espontânea para a gravação (imprevisível e reversível, caso alguém que conheça a coreografia recuse só de sacanagem e depois libere), ainda no primeiro estudo, (2) a recusa forçada para a gravação, no segundo estudo, (3) a fuga do primeiro e segundo bailarinos após provocação do verdadeiro ou falso voluntário para segurar a câmera, (4) o final do quarto estudo e (5) qualquer outro momento em que o prosseguimento se torne inviável por irritação ou debandada do público com as propostas ou ferimento grave dos bailarinos, com a ressalva de que os bailarinos devem insistir bastante na continuidade até o ponto previamente planejado para a ocasião ou até o fim. Em todos os casos, primeiro e segundo bailarino saem e segue a instrução para o caso de irromperem aplausos ou não.

 

Porto Alegre, 26 de maio de 2011

 

Régis Antônio Coimbra – racoimbra@gmail.com

Memórias Ectópicas 9

07/07/2012

Lembras de relações algo como a nossa nessas tuas aventuras ectópicas?

Sim. Além das vidas mais rudes simuladas dentro daquela grande simulação, havia uma complexidade interna que me jamais deixariam um solitário Robinson Crusoé (ou mais explicitariam a irredutibilidade a uma condição solitária para alguém mesmo tão desamparado como somos agora). Além disso, havia muitas atrações externas, mais ou menos pessoais ou deveras estranhas e não por isso menos sedutoras de muitos diferentes sentidos que eu na verdade não entendo e, se entendesse, não saberia explicar. Algumas das “lembranças” não me fazem sentido, são como aparentes arbitrariedades em decorrência de me escapar algo essencial de que não faço a menor ideia e não por isso deixam de causar um arremedo de fascínio como diante de uma suposta notação de um problema ou solução rigorosamente discutido com símbolos matemáticos ou algo assim.

Bem vago isso…

E como eu poderia explicar mesmo isso que temos para outra pessoa? Mas, sim… deixa eu dar dois… três exemplos.

Um amigo mostrou-me em diversas torrentes uma série de produções de puras ou hibridizadas artes e ciências que me provocaram respostas e nisso estabelecemos um relativamente longo diálogo. Entenda que “arte” envolve estética e estética envolve sensações, sentimentos e paixões mais ou menos (ou nada) calmas que os complexos modos de segurança permitiam explorar de modo muito mais ousado do que nossos frágeis corpos sem backup. Naquela nossa realidade era possível morrer de amor (sem saber da relativa reversibilidade), arrebatar-se, sacrificar e ser vil e porco de muitos modos… alguns mais ou menos imagináveis, outros inimagináveis e mesmo, como já comentei, de modos que não entendo. Muitas coisas feias e bonitas de modo estranho eram possíveis dentro de graus de segurança tais que permitiam viver a loucura de pequenas e não tão pequenas mortes. Dito de outro modo, para criaturas praticamente imunes a sequelas, o crack e o suicídio seriam como açúcar montanha russa, sem necessariamente precisarmos saber em todos os níveis que se tratavam de procedimentos seguros e mesmo geralmente ou quase inevitavelmente edificantes.

Era melhor?

Era proporcional.

Não tens saudade? Não era preferível?

Havia volúpia em experimentar, “lá”, o que vivo aqui e mesmo versões mais áridas ou temerárias. Claro que lá havia inclusive essa possibilidade e, nesse sentido, “aquilo” lá envolvia “isso” aqui…

Não poderia isso ser mais uma das simulações que viveste lá, sem saber que eram “meras” simulações?

Mas aí é que está: não eram meras simulações. Se “isso” for uma simulação – disse metaforicamente tocando em meu pau -, para mim não é uma mera simulação. E se para ti não é uma simulação, então para ti não é uma simulação.

Bom, para mim não é uma simulação muito menos uma mera simulação.

Não esperava que dissesses outra coisa, salvo por galhofa, mesmo que sejas uma simulação – que, em parte, és… em minha mente.

Não podemos ser desdobramentos de uma mesma outra mente mais narcisista?

É… na verdade eu brinquei disso muitas vezes, sem dar por isso… Isso é: sem que meus desdobramentos (mais do que dois) soubessem ser desdobramentos, recuperáveis e tal. De fato, essa é uma das razões pelas quais minha e (e geral) noção de individualidade ou identidade foi deveras relativizado e mesmo inviabilizado ou superado.

E as experiências podiam ser compartilhadas. Não é só como um videogame que jogas solitário. Havia versões com vários jogadores (que podiam vir de fontes internas ou externas, como já te sugeri na referência aos jogos amorosos estético-sensuais ou dramáticos); e havia ainda versões fechadas ou experimentadas como fechadas, como a leitura de um livro, mal comparando… em que uma parte de minha consciência vivia um roteiro pré-definido que não por isso era vivido com enfado seja por eu poder desligar na fração a consciência de ser uma experiência de… “leitura”, seja pela riqueza dos detalhes e beleza das formas como as tesões, relaxamentos, curvas e retas eram oferecidas. A arte da verossimilhança estrita evoluiu muito, bem como a da produção de atmosferas internamente coerentes, ainda que relativamente absurdas ou contrafactuais.

Havia problemas, incômodos, insegurança, desespero?

Não no patamar amplo. Alguns, nos primeiros experimentos, suicidaram-se por tédio e conseguiram não deixar vestígios de enormes partes de si próprios. A cicatriz entrevada que me tornara antes de ser turbinada, em todo caso, era muito menos do que tais vestígios até pela falta de interações. Ser “um” era em grande e mesmo crescente medida uma série de marcas deixadas para muitos lados, lados que na maioria eram outras criaturas cientes e ciosas de si…

…mesmas?

É… a relativa redundância tem a ver um pouco com essa questão.

Mas o que tentei abordar foi que, após alguns desengonços iniciais, que geravam algum tédio ou falta de motivação algo metodicamente patológicos – e mesmo então já era muito difícil o envenenamento afetivo de tipo melancólico -, o domínio técnico sobre o que chamamos ainda de “força de vontade” era tal que não havia como no patamar mais amplo alguém desesperar mesmo em situações realmente desesperadas como, digamos, um “naufrágio”.

Naufrágio?

Muitas coisas que fazíamos envolvia “baixar” uma versão mais ou menos adaptada de algum de nós em situações longínquas, conjugando corpos também mais ou menos adaptados ou meras consciências totalmente virtuais e capazes de operar corpos mais padronizados – que chamaríamos de máquinas, embora a distinção lá pelas tantas tenha se tornado irrelevante. Pois bem, em algumas lonjuras (e algumas eram realmente longínquas), uma enorme quantidade de dados e mesmo arte ou ciência era produzida e algum problema local eliminava qualquer esperança de disseminação dos dados, artes, ciências e, enfim, vidas lá vividas. Mesmo nesses casos, com o pouco que se pode recuperar – ressalvada alguma edição, em todo caso não muito típica da “cultura” de base de nossa civilização – o clima parece não ter sido significativamente afetado. É um aparente paradoxo: tínhamos muito mais a perder e bem menos apego a tudo.

Aparente?

A fruição do presente foi uma arte muito amplamente desenvolvida. Nisso, o futuroera apenas uma dádiva adicional, uma curiosidade mas não uma preocupação ou ânsia. Contribuir com muitos era um regozijo adicional, mas consigo era o núcleo e com o imediatamente próximo o melhor horizonte. E havia o aspecto “dopado” de nossa cultura. Sofrer era um luxo acessível… como um luxo.

Isso foi só um de três exemplos?

Eu nem sabia que havia concluído o primeiro. Mas pode ser.

O segundo exemplo é relativo à capacidade de cindir, contrapor… a arte do solilóquio sempre em forma de diálogo e mesmo assembléia. O terceiro foram meus diálogos com o tal… deus que me proporcionou essa experiência toda e que, sei, deve ser o exemplo que mais te atiça o furor de me rotular como esquizofrênica ou algo assim…

Não serves para esquizofrênica “de verdade”…

Eu “sei” – provocou-me.

Memórias Ectópicas VIII

07/07/2012

Principalmente, não sei. Mas quero ir decidindo, no que me couber. Vir aqui ou, mais precisamente, munto a ti, tem muito a ver com isso.

Junto a mim?

Sim… pois, assim como podia simular vidas muito estranhas mais ou menos históricas ou fictícias, podia simular alternativas que não explorara seja na primeira centena, seja nas seguintes. O modo de segurança, claro, tornava as simulações posteriores bem menos radicais, embora mais interessantes por serem intrinsecamente mais ricas e interessantes as experiências posteriores que rapidamente se tornavam relativamente fáceis de reproduzir duma perspectiva ou patamar seguinte. Mas, bem… o que efetivamente vivo agora é um mergulho sem garantias nem proteções.

O normal… ou real – não é?

Normal que raramente suportamos. Quase um ideal. Ou estás realmente aberto para improvisações agora – disse virando-se para mim e ameaçando levantar-se ou jogar-se.

Subestimas o quanto precisamente a consciência do risco trava o improviso ou, dito pela perspectiva inversa, o quanto isso reforça estratégias defensivas…

…que podem ser mais ou menos adequadas. Por vezes a defesa é a melhor defesa; por vezes o ataque o é. De fato, minha estranha memória é copiosa de experiências quase reais e assumidamente simuladas de muitas batalhas literais ou metafóricas ganhas ou perdidas por maiores ou menores adequações de políticas, estratégias e táticas que…

…que não me interessam no momento. Estavas quase fazendo ou deflagrando um desafio antes de voltar à tagarelar. E então?

Tagarelar é a regra aqui. Não?

A fala é o método principal, quase exclusivo. Mas a fala é apenas uma forma relativamente controlada de expressão do que interessa, que é uma forma de ação ou de ser. E o objetivo tampouco é a perpetuação, até porque o tempo é mais ou menos cronometrado e outro tanto racionalizado “aqui” (ou por mim, se preferires).

E se eu levantasse e te tocasse?

O que achas (ou já simulaste muitas vezes) que aconteceria?

Sei… ou acredito fortemente, que me não rejeitarias.

Fortemente?

Sim, como acredito que não me cairá um tijolo sobre a cabeça quando caminho pela rua, ainda que próxima à parede de um prédio.

Ou seja, até pode acontecer?

Pode. Mas eu, de certo modo, já te conheço. Como conheço tijolos, pedreiros e empreiteiros…

E, ainda assim, Hesitas?

Não – ou não principalmente – pelo medo da rejeição.

Isso é certo para ti?

Não… não sei. Talvez eu racionalize. Como talvez tu racionalizas e te confortas nessa posição “profissional”.

Já saí alguma vez dessa posição…

Não sem longa preleção e justificação.

O que ela me talvez blefando disse causou certo arrepio. Mas retruquei: agora de certo só poderei agir de modo injustificável se eu fizer algo francamente afrontoso que nem me interessa fazer.

Não precisas tomar a iniciativa. Aliás, isso agora é bem confuso. Quem conduz a quem nessa conversa?

É apenas uma conversa?

E existe tal coisa?

Nem ao se falar do tempo.

Ela se levantou e se aproximou sem especial pressa nem hesitação e, mesmo assim, tomou-me relativamente de surpresa em um suave… abraço no qual colocou um dos joelhos entre os meus e me puxou contra si com os braços e, acho, beijou me no alto da cabeça por alguns (subjetivamente longos) segundos.

Somos corporais, afinal… Teu cabelo e morrinha me agradam ou tu me agradas e teu cabelo e morrinha são apenas sinais disso que és e que me agrada?

Pensei vagamente em sugerir que se tratava de uma falsa dicotomia, mas preferi abraçá-la de volta, enlaçando-a pela bunda, dizendo “não sei e… não sei se me importo”.

Ela se deixou escorregar de lado para meu colo para se logo levantar e me puxar. Enquanto levantei-me ela se aproximou mas antes que me beijasse eu já estava de pé e a olhei nos olhos – e vice-versa.

Isso é imprevisível ou manjado?

Não sei nem… se quero saber. Não será uma falsa dicotomia.

Outro arrepio percorreu-me e sorri quase lacrimejando. Aproximei meu rosto, a cheirei e beijei os lábios, suave e arrepiantemente, com o prazer especial como quando tomo o primeiro gole de cerveja gelada no entardecer de um dia quente. Ela rapidamente pareceu estranhamente mole mais do que carnuda contra minha boca e a investiguei com língua e salivas, ao que ela reagiu com alguma sofreguidão ainda suave. E assim por diante, numa rápida e improvável escalada, sem camisinha.

Eu te amo, dissemo-nos disseminadamente. O que significava isso para além de muitas falsas dicotomias? Questionamo-nos e ao menos provisoriamente concluímos que o interesse maior era em ir descobrindo mais do que em saber.

É assim que termina? É uma transição com fim de uma tarefa e início de outra?

A princípio, não. Eu vejo como uma complicação ou sofisticação.

Isso já não é mudança bastante? E se eu engravidar, por exemplo?

Problemas concretos são uma dádiva, dentro de certos limites. Quanto às preliminares, o que querias com elas?

Não esperava, eu te preparava, e a mim mesma.

Já sabias no que ia dar?

Ainda não sei. Em parte, claro, já dei e ganhei. Nudez a parte, há muito a descobrir, definir e subverter.

Humnm… Curioso ainda teres interesse em mim. Por quanto tempo.

O interesse não é só ou principalmente em ti. É no que me provocas ou me permites descobrir, com a complexidade adicional de que te também vais definindo, descobrindo e subvertendo no processo.

Isso já era o caso antes.

Não de modo tão explicitamente recíproco. O recato anterior, principalmente teu, gerava uma amplitude de possibilidades maior, mas “isso” agora envolve outras profundidades menos abstratas ou ensimesmadas.

Como numa radical neurose de transferência, tu te sentes curada de tuas memórias ectópicas?

Quando te procurei eu já não mais delas padecia ou me regozijava… ou reconfortava. Por isso mesmo procurei algo diferente.

Será que eu te esperava?

Isso virou uma meia, agora?

Recompomo-nos e combinamos como tocaríamos novamente no assunto. As bases (e ácidos) mudaram, ainda que a química fosse deveras a mesma ou assim gostássemos de pensar. Ela, para louca, não servia e sua bizarria continuava não sendo o mais importante para mim inclusive por não parecer ser o mais importante para ela. No entanto, como se ela fosse uma instrumentista virtuosa, persistia certo interesse em a ver ou ouvir soar bem como interesse dela em se fazer ver ou ouvir – que é a parte que, a princípio, lhes cabe.