Ao reler alguns poemas de Fabiana de Brito Gomes em seu blog, entusiasmei-me a escrever alguns, tudo em 15 de novembro de 2011. Vou indicar o título (devidamente linkado) do poema dela e, na sequência, transcrever o que escrevi em reação.
Ah… dancei descalço
certeiro em tuas
curvas elipses e pontos
de atração inclusiva
onírica e úmida
do pranto e maresia
da ressaca com que me
encantas de volta
para o teu mar primeiro
cujo sal de trans-
atlânticas lágrimas
tempera meu sangue
com que oxigenas o fogo
de minha paixão terna
mas não precisa ou calma
nessa navegação íntima
de calmarias suarentas
e tempestades arrepiantes
De tanto o rio vir ao mar
este volta ao rio
salgado na pororoca
ou inicialmente destilado
nas chuvas que erodem
a erótica terra fértil
que tempera esse recorrente
fluxo que nos reproduz
na eternidade de Tibicuera
Ah… minha metáfora preferida:
arde em mim a mesma ferida que sangras
Arrogantes fomos ao desafiar os deuses
que nos cortaram em metades mal
costuradas nessas semi-feridas
de nossas mais queridas mucosas
Mas não idealizo a completude perdida
sem a qual não conheceríamos a vertigem
dos reencontros tão preciosos precisamente
por serem tão imprecisos e arriscados
Da matrona Níobe
como da fornida Obirici
verte feminina essa água
(e por vezes essa lava)
com que me atavicamente
empenho em contra corrente
buscando as fontes
nos teus seis lábios
com minhas duas línguas
até retribuir viscoso
todo o viço que vertes
num gostoso espasmo de vida
Chamam de pequena morte essa
que nos reproduz à noite
a luz e o calor do sol
cujos raios movem
por bilhares de anos
a cada dia
toda a hidráulica, química
biologia e economia de nosso
mundo, vasto mundo, encolhido
em nossa vã filosofia
com que estendemos nossos lençóis
com que velamos nossas naus nuas
ao singrarmos os rios e oceanos
de nossas margens, istmos e baías
Terra avisto em teus brilhantes
olhos negros que me chamam
terra a dentro em teus tons
terrosos pontuados ébano e marfim
numa envolvente melodia que me atavia
elefalante ao trombar com teus mistérios
No teu mais baixo alto-forno
arde todo um eldorado
em que fundimos nossas estéticas
políticas e éticas assimétricas
numa prática conjunta de volúpia
respeito, ternura e gratidão
Minha sensível ponta
é aquecida em tua brasa
de telúrica lava
remoída pelas marés das a-
trações de nossos olhares
que se encontram e des-
encontram cíclicos
Rondamo-nos
moemo-nos
irrigamo-nos
Até que nossas pontas
pedras, crespos, lâminas
reviravoltam-se num fino pó
com que formamos massa
cuja liga
por meio do produto
multiplicador
dessa soma
incontável
religa-nos
ao reinício
do próximo ciclo