Memórias Ectópicas VI

Tudo perfeito, adequado, seguro? E mesmo assim com várias mortes em todo caso ineficazes? irrelevantes?

Não. As mortes não eram irrelevantes. Temia, mesmo, cada morte, ordinariamente com o visceral horror, embora por feliz engenharia, tivesse a opção de desligar esse agônico recurso como quem desliga um alarme. Era mais fácil, por vezes, lidar com a realidade, atenuando a torrente desmedida que da cega evolução resultara.

Hum… fala mais, ou algo assim – ridicularizei-me várias vezes.

Um dos problemas iniciais, que ela nem viveu – ainda entrevada -, era a obsolescência. Não do corpo. Um horror de muitos era não gostar de coisas banais como da música senão a da adolescência e do que lhe fizesse mais referências. Coisas assim levaram a curiosos suicídios decorrentes da dificuldade de se admirar com o novo mundo ou vida disponível. Então se testaram protocolos arriscados de re-adolescências mais ou menos agudas ao fim combinadas com certa leviandade permanente. Na odontologia, os dentes do siso até foram em grande medida aposentados, salvo casos muito específicos. Na psicologia o siso em parte se tornou mais precoce e geral, mas uma delicada combinação de entusiasmo e humor foi promovida como recurso essencial para sobreviver às peculiares necessidades de tamanha fartura de recursos e mesmo tempo para os explorar, o que esgotara muitos pioneiros.

Quando se recuperou, isso já se havia razoavelmente resolvido. Por isso mesmo tanto mais da identidade tão duvidosamente recuperada perdeu-se ao longo de tantas reviravoltas e bifurcações…

Bifurcações?

Ok: como já vagamente sugerira, havia a possibilidade quando não seqüela das bifurcações. Ela recomeçou e criou uma nova identidade e competências. E, assim, foi requisitada para novas tarefas em novos locais muito distantes e caros de visitar convencionalmente, ou em circunstâncias muito específicas ou mesmo abstratas, além de continuar necessária onde já estava ou rodava. Então era recriada onde era necessária e, uma vez recriada, a bifurcação se considerava – não sem razão ou ao menos motivos – outra. E, de fato, quanto mais o tempo passava, mais divergiam, ressalvado que aos poucos se em geral percebeu que se é muito parecido, ainda mais conquanto se as falhas ou carências superam.

Exemplos?

Apesar da fragilidade de sua identidade recuperada e do soterramento sob várias novas experiências, era uma das mais antigas referências ou testemunhas de seus primeiros tempos. Embora sua formação original como sua inicial nova inserção fosse principalmente em fria área técnica, mesmo assim era uma referência relevante da época e da experiência de “vir de lá para cá daquele modo”. Assim, com sua autorização, foi reproduzida em processamentos especializados em responder a respeito e mesmo recriada mais ou menos de modo integral (com adaptações) em ambientes virtuais e convencionais diversos. E se correspondeu de modo mais ou menos convencional com algumas dessas versões, bem como partilhou memórias com algumas dessas, além de com outras pessoas mais diversas.

Isso relativizou bastante a noção de identidade, embora certa solidão e agonia fossem irremediáveis ou, grosso modo, já estivesse tão remediado quanto possível. Nesse sentido, aliás, o maior avanço foi uma espécie de “modo de segurança” que se acionava automaticamente em certas circunstâncias bem como podia ser acionado em certas outras. A confiança em seu acionamento automático ou na possibilidade de o acionar permitia a muitos suportar muito mais.

Mas tu, mais ou tão mais especificamente quanto possível, chegaste a acionar ou ter automaticamente acionado o tal modo de segurança?

2 Respostas para “Memórias Ectópicas VI”

  1. Fabiana de Brito Gomes Diz:

    Fiquei imaginando como é o “modo de segurança”…Tipo “estar em pânico”?

    • racoimbra Diz:

      O “modo de segurança” é como um respirar fundo para não agir tão impulsivamente. É conseguir a calma necessária seja para se abster, seja para mergulhar de cabeça; a calma necessária para se portar deliberadamente sereno ou furioso, de modo aristotelicamente adequado.

      Em pânico já ultrapassamos o “modo de segurança”. Mas podemos, então, reiniciar em “modo de segurança”.

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